A VIOLÊNCIA SILENCIOSA

  A VIOLÊNCIA SILENCIOSA                                                         O consumidor possessivo e a lenta perda da humanidade

Há uma forma de violência, que não precisa de armas, prisões ou censura. Ela acontece silenciosamente, quando uma sociedade consegue convencer seus indivíduos de que aquilo que possuem, é mais importante do que aquilo que são.

Talvez seja essa uma das características mais perturbadoras da contemporaneidade.

O homem moderno não é, necessariamente, mais ignorante do que seus antepassados. Ao contrário: dispõe de uma quantidade extraordinária de informação, recursos tecnológicos e possibilidades de acesso ao conhecimento.                                                                                                Entretanto, informação não produz necessariamente consciência.          Uma sociedade pode tornar-se extraordinariamente sofisticada em seus instrumentos, e permanecer profundamente primitiva, na maneira como compreende a própria existência.

É nesse paradoxo que surge o que podemos chamar, provocativamente, de imbecilidade contemporânea.

Não se trata da falta de inteligência individual. Trata-se de uma condição psicossocial, na qual a inteligência é progressivamente subordinada à lógica do consumo, da aparência, da competição e da acumulação.                           O indivíduo continua pensando, mas passa a pensar dentro de categorias que já lhe foram fornecidas. Continua escolhendo, mas frequentemente escolhe entre alternativas, previamente produzidas pelo mercado.

A liberdade permanece formalmente intacta, enquanto sua imaginação é colonizada.

O nascimento do consumidor possessivo

Durante muito tempo, possuir coisas significava, sobretudo, satisfazer necessidades, garantir segurança ou demonstrar poder.                                   A propriedade tinha uma função econômica, social e política, relativamente definida.  O capitalismo contemporâneo acrescentou outra dimensão:           a propriedade tornou-se identidade.                                                     Não basta possuir. É preciso ser alguém, através daquilo que se possui.

O indivíduo começa então, a construir uma espécie de autobiografia material: o carro que dirige, a casa em que mora, a roupa que veste, o restaurante que frequenta, o telefone que utiliza, os lugares que visita, os objetos que exibe.

Surge, assim, uma nova figura antropológica: o consumidor possessivo.  Ele não é simplesmente, aquele que compra muito.  É aquele que precisa possuir, para sentir que existe.

O objeto deixa de cumprir uma função, e passa a desempenhar uma função psicológica. Ele oferece segurança, distinção, pertencimento, reconhecimento e, sobretudo, a sensação provisória de que a vida está sob controle.

O consumidor possessivo não compra apenas uma coisa. Compra a narrativa que acompanha a coisa.  Um automóvel pode significar liberdade. Uma roupa pode significar juventude. Uma casa pode significar sucesso. Um relógio pode significar prestígio. Uma viagem pode significar felicidade. Um aparelho eletrônico pode significar modernidade. O objeto é perseguido pela narrativa que o define, antes da sua utilidade.

O objeto torna-se uma linguagem.  E o mercado aprende a falar essa linguagem, com extraordinária eficiência.

A fabricação social da insuficiência

Para que o consumidor continue comprando, é necessário que ele nunca esteja completamente satisfeito.

Essa talvez seja uma das engrenagens psicológicas mais sofisticadas da sociedade de consumo: transformar a insuficiência, em necessidade permanente.

A publicidade raramente diz apenas: "compre isto".  Ela diz, de maneira muito mais sutil:  Você poderia ser mais bonito.  Mais jovem.  Mais desejado.  Mais admirado.  Mais moderno.  Mais bem-sucedido.  Mais feliz.  E então apresenta o produto como solução!!

O consumo passa a ocupar o espaço, que antes pertencia à reflexão, à experiência, à convivência e à construção interior.

O indivíduo deixa de perguntar:  "O que realmente preciso?"  E passa a perguntar:  "O que preciso possuir, para ser o que esperam que eu seja?"

É uma mudança aparentemente pequena, mas antropologicamente devastadora.                                                                                                      Porque, quando a identidade depende da posse, a pessoa fica permanentemente vulnerável à comparação.                                                Sempre haverá alguém com uma casa maior, um carro mais caro, um corpo mais jovem, uma viagem mais exótica, uma roupa mais sofisticada, uma vida aparentemente, mais interessante.

A sociedade transforma a existência, numa competição sem linha de chegada.

O mercado descobriu a fragilidade humana

O capitalismo não inventou a vaidade, a inveja, a ambição ou o desejo de reconhecimento. Essas características acompanham a história humana.  Sua genialidade foi outra: aprender a transformar as fragilidades humanas, em mecanismos econômicos.

A insegurança, virou mercado.  A solidão, virou mercado.  O medo do envelhecimento, virou mercado.  A necessidade de pertencimento, virou mercado.  A insatisfação com o próprio corpo, virou mercado.  O desejo de reconhecimento, virou mercado.  Até a busca espiritual, pode transformar-se em produto.

O sistema econômico não precisa destruir nossos desejos. Ao contrário: precisa ampliá-los.                                                                                                      O consumidor perfeito é aquele que nunca chega.  Nunca chega à casa ideal.  Nunca chega ao corpo ideal. Nunca chega ao sucesso ideal.  Nunca chega à felicidade ideal.

Porque, no instante em que chegasse, deixaria de consumir.

A insatisfação, portanto, deixa de ser um acidente psicológico, e passa a funcionar como combustível econômico.

O objeto que possui o proprietário

Existe uma ironia profunda, na relação contemporânea com os objetos.  Pensamos que possuímos coisas.  Mas muitas vezes, são elas que passam a nos possuir.  A casa exige manutenção.  O automóvel exige financiamento.  O celular exige atualização.  A aparência exige investimento.  O padrão de vida exige renda.  A renda exige trabalho.  O trabalho exige tempo.                                                                                                 E o tempo, uma vez entregue ao sistema, não retorna.

Chegamos então a uma inversão silenciosa:  trabalhamos para possuir coisas, que nos obrigam a trabalhar ainda mais.

A propriedade, que deveria ampliar a liberdade, pode transformar-se em obrigação.

O indivíduo compra uma vida, que depois precisa trabalhar para sustentar.

E talvez essa seja uma das formas mais sofisticadas de alienação contemporânea: não perceber, que o que imaginávamos adquirir para viver melhor, está progressivamente determinando como devemos viver.

Quando consumir substitui viver

A sociedade de consumo não vende apenas objetos. Ela vende experiências.  Viaje.  Experimente.  Conheça.  Coma.  Descubra.  Registre.  Publique.    Compartilhe.                                                                                                                O problema não está em viajar, comer ou experimentar. O problema aparece, quando a experiência deixa de ser vivida, para ser convertida em prova de que foi vivida.

A fotografia, passa a ser mais importante que a paisagem.  A publicação, mais importante que o encontro.  A avaliação, mais importante que a experiência.  A visibilidade, mais importante que a memória.

É como se a vida precisasse de testemunhas para adquirir realidade.

E aqui encontramos outra dimensão da imbecilidade contemporânea: a substituição da experiência, pela sua representação.

Não basta viver.  É preciso mostrar que se vive.  Não basta ser feliz.  É preciso parecer feliz.  Não basta amar.  É preciso demonstrar publicamente que se é amado.

O indivíduo torna-se simultaneamente pessoa e vitrine.

A sociedade da comparação permanente

A antiga comparação acontecia entre pessoas relativamente próximas.  Hoje, um indivíduo pode comparar sua existência, com milhares de outras vidas, antes mesmo do café da manhã.  E existe um problema fundamental nisso: ele compara sua vida real, com a versão editada da vida alheia.

O resultado é previsível.  Insatisfação.  Ansiedade.  Sensação de  fracasso.  Desejo de compensação. E, finalmente, consumo.

O circuito sociopsicológico é perversamente eficiente:

comparação > insuficiência > desejo > consumo > satisfação temporária > nova comparação.

O indivíduo acredita estar buscando felicidade, quando muitas vezes, está apenas tentando reduzir a dor provocada pela comparação.

A perda da interioridade

Talvez a consequência mais grave desse processo, não seja econômica, mas existencial.  Uma pessoa permanentemente estimulada, perde progressivamente a capacidade de permanecer consigo mesma.

O silêncio incomoda.  A espera incomoda.  O tédio incomoda.  A solidão incomoda.  É necessário preencher cada intervalo.  Uma tela.  Uma compra.  Uma mensagem.  Um vídeo.  Uma notícia.  Uma promoção.  Uma distração.

A interioridade começa a parecer um espaço vazio, que precisa ser imediatamente ocupado.  Mas é justamente no silêncio, que frequentemente surgem as perguntas fundamentais:

Quem sou?  O que desejo?  O que realmente importa?  Que tipo de vida quero construir?  O que estou fazendo com meu tempo?  O que permanecerá de mim, quando aquilo que possuo, deixar de existir?

Uma sociedade que não permite essas perguntas, produz indivíduos extremamente ocupados e profundamente desorientados.

O consumidor possessivo, como personagem do nosso tempo

O consumidor possessivo, talvez seja uma das figuras mais emblemáticas da nossa época.  Ele não é necessariamente rico.  Pode estar endividado.  Não compra porque pode.  Compra porque precisa sentir que pode.                  Seu desejo de possuir cresce justamente, quando sua sensação de insuficiência cresce.  Ele não quer apenas coisas.  Quer aquilo que imagina, que as coisas dizem sobre ele.

Por isso, seu consumo é também uma tentativa de construção do eu.

Ele compra uma identidade pronta, porque construir uma identidade própria, exige algo que o mercado não pode vender: tempo, reflexão, experiência, sofrimento, maturidade e consciência.

O mercado oferece atalhos.  A humanidade exige caminho.

A pobreza de uma sociedade rica em objetos

Talvez devêssemos começar a perguntar, se uma sociedade pode ser materialmente rica e humanamente pobre.

Pode!!

Uma casa pode estar cheia de objetos e vazia de conversa.  Uma mesa pode estar cheia de comida, e vazia de convivência.  Uma agenda pode estar cheia de compromissos, e vazia de sentido.  Um telefone pode estar cheio de contatos, e uma pessoa permanecer profundamente solitária.  Uma vida pode estar cheia de aquisições, e vazia de significado.

É essa contradição, que precisamos enfrentar.

O problema não é possuir.  É quando possuir, passa a substituir o ser.

O problema não é consumir.  É quando consumir, passa a determinar quem somos.

O problema não é desejar.  É quando nossos desejos deixam de nascer de nós mesmos.

Recuperar a humanidade

Talvez a resistência ao consumidor possessivo, não esteja em abandonar o mundo, rejeitar a tecnologia, ou romantizar a pobreza.

Está em recuperar a capacidade de estabelecer limites.  Aprender novamente a palavra suficiente.

Suficiente não significa pouco.  Significa aquilo que basta, para que a vida não seja subordinada às coisas.

Precisamos reaprender a distinguir conforto, de dependência, desejo, de necessidade, liberdade, de poder de compra, felicidade, de aquisição.  Precisamos recuperar a capacidade de desejar coisas, que não podem ser compradas: Amizade.  Tempo.  Conhecimento.  Memória.    Afeto.   Solidariedade.  Contemplação.  Sabedoria.  Atenção.  Presença.

Nenhuma dessas coisas cabe numa vitrine.  E talvez seja justamente por isso, que sejam tão importantes.

A grande pergunta do nosso tempo não deveria ser: "Quanto podemos possuir?"  Deveria ser:  "Quanto podemos possuir, sem permitir que aquilo que possuímos, destrua aquilo que somos?"

Porque, talvez o verdadeiro desastre cognitivo da contemporaneidade, não seja termos nos tornado menos inteligentes.  É termos nos tornado inteligentes demais, para produzir tantas coisas, e pouco conscientes para perguntar, por que precisamos de tantas delas.

O futuro da humanidade, talvez dependa menos daquilo que conseguiremos inventar, do que daquilo que conseguiremos recusar.

Recusar o excesso.  Recusar a comparação permanente.  Recusar a felicidade como mercadoria.  Recusar a identidade como vitrine.  Recusar a ideia de que uma vida vale mais, porque custa mais.  E, sobretudo, recusar a transformação do ser humano, em consumidor de si mesmo.

Porque talvez a última fronteira da liberdade. seja justamente esta: possuir coisas, sem precisar ser possuído por elas.

E talvez a verdadeira civilização comece, quando descobrirmos que ser humano é uma experiência muito maior do que ter coisas suficientes para parecer humano.

Mario Moura

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